Um analista afirmou que o Bitcoin desabaria numa crise por não ter valor intrínseco. O argumento parece sólido. Porém, ele mede algo novo com uma régua velha — e quebrada.
Qual é o valor intrínseco de 3?
Imagine, antes de tudo, que eu lhe faça uma pergunta simples. Qual é o valor intrínseco de 3?
Você provavelmente responderia: 3 o quê? Em seguida, eu insistiria: não, apenas 3. A pergunta, então, se desmancha. Afinal, ela não faz sentido algum.
O número 3, na verdade, é uma convenção humana. Nós o criamos para ordenar e contar o mundo. Na natureza, porém, não existe 3. Aliás, não há “3 maçãs” em lugar nenhum. Cada maçã é única. De fato, no nível molecular, nenhuma é comparável à outra.
Ou seja, 3 é apenas uma ferramenta. Portanto, perguntar seu valor intrínseco é fazer a pergunta errada. Guarde essa ideia. A mesma armadilha, como veremos, vale para o valor intrínseco do Bitcoin.
O verdadeiro valor intrínseco do Bitcoin: a capacidade de contar
Há poucos dias, assisti a um vídeo de Luiz Fernando Roxo. Nele, ele afirmou, com convicção, que o Bitcoin cairia de 70% a 80% numa crise de liquidez (veja o vídeo).
Seu raciocínio é direto. Primeiro, o Bitcoin não gera fluxo de caixa nem paga juro. Além disso, segundo ele, não tem valor residual de liquidação. Portanto, não poderia ser precificado. O ouro, na visão dele, seria diferente. Afinal, teria uso no mundo real. O Bitcoin, então, teria apenas valor extrínseco — ou seja, pura convenção das pessoas.
No entanto, não vou disputar a aritmética de Roxo. Dentro do domínio dela, de fato, a régua de fluxo de caixa funciona. O problema, portanto, não é o cálculo. O problema é o domínio. Na prática, ele aponta a régua para algo que ela nunca foi feita para medir.
Bitcoin não é um ativo. Tampouco é commodity ou uma ação. Ele já foi “só uma moedinha de internet para nerds”. Ainda assim, tudo bem. O rótulo, afinal, nunca importou para a rede. Para o funcionamento dela, tanto faz.
Bitcoin é matemática aplicada ao mundo físico. Em outras palavras, é a capacidade humana de contar, tornada inconteste. Como argumentei em outra coluna, o Bitcoin é a primeira régua de valor que não depende de matéria imperfeita.
O preço não revela o valor intrínseco do Bitcoin
Aqui, no entanto, alguém honesto vai me interromper. Bonita a filosofia, dirá o leitor. Contudo, o Bitcoin tem preço, é negociado, e gente perde dinheiro de verdade.
A objeção é justa. Por isso, vou ser direto. Sim, o Bitcoin tem preço. De fato, há quem perca dinheiro. Não nego isso.
Ainda assim, quero ser mais preciso. É exatamente aqui que o debate sobre o valor intrínseco do Bitcoin trava. Em resumo, confundir o preço com a coisa é o erro de categoria. O preço, portanto, não é uma propriedade da rede. Na verdade, é o que nós projetamos sobre ela. É o nosso medo, a nossa euforia, a nossa alavancagem, o nosso humor numa terça-feira. A rede, porém, não tem preço. A rede tem uma regra.
O relógio não sabe que horas são caras
Pense, por exemplo, em um relógio. Ele é, na essência, uma máquina de contar. Ele avança 60 segundos por minuto numa virada de ano. Da mesma forma, avança às 3h de uma terça-feira sem sono.
O relógio, contudo, não sabe se a hora que marca é preciosa ou desperdiçada. Esse julgamento é nosso. Nós é que o trazemos. O relógio, afinal, apenas conta.
A rede Bitcoin, portanto, é o relógio. Ela adiciona 3,125 BTC a cada dez minutos, indiferente a tudo. Além disso, seguirá assim até o próximo halving, por volta de 2028. O preço em dólar, então, é só o nosso humor sobre o que o relógio marca.
Suponha, agora, que Roxo esteja certo. Imagine que o Bitcoin caia 70%. E daí? O relógio continua. A regra, no entanto, não muda. A queda seria um fato sobre nós — ou seja, sobre o nosso pânico. Nunca um fato sobre a matemática. É por isso que aplicar a régua velha a um conceito novo falha. Em resumo, ela mede o nosso humor e o chama de coisa.
O ouro também é convenção
Roxo concede ao ouro uma exceção. Segundo ele, o metal teria valor residual e uso real, e por isso sobreviveria. Olhe de perto, no entanto.
A maior parte do valor do ouro, na verdade, nunca foi industrial. É joia, é status, é ornamento. Acima de tudo, são milênios de seres humanos concordando que o ouro é especial. Esse acordo, portanto, também é extrínseco. Ele também é convenção. Trata-se de uma convenção bela, antiga e durável — mas, ainda assim, convenção.
Logo, a régua que “salva” o ouro já falha nos próprios termos. Se o valor extrínseco desqualifica o Bitcoin, então ele desqualifica o ouro também. Em outras palavras, a fronteira que Roxo desenha é mais fina do que parece.
Por que isso importa para quem aceita Bitcoin no comércio
O lojista que aceita Bitcoin no balcão vive essa tese sem nunca filosofar sobre ela. Ele não está precificando. Na verdade, ele está contando. Cada venda, afinal, soma satoshis. Mesmo que o preço caia 70% no mês seguinte, isso é irrelevante para o ato de contar. Ele apenas segue acumulando, em silêncio, venda após venda.
Esse é, portanto, o motivo mais profundo para aceitar Bitcoin no comércio diário. Não se trata de uma aposta no preço. É, antes, participação na contagem. Os primeiros pitagóricos, sem dúvida, teriam orgulho. Pela primeira vez, de fato, aplicamos no mundo físico uma medida inconteste para ordenar as coisas.
Ferramentas como o Depix Gateway existem exatamente para isso. Com elas, o lojista brasileiro aceita Pix de qualquer cliente e acumula na Liquid Network. Além disso, faz isso sem depender do sistema bancário tradicional. O Pix, assim, continua sendo o trilho que o seu cliente já conhece. A contagem apenas começa por baixo dele. Quem quiser entender o processo, portanto, pode começar por depix.site.
Um último pensamento: o apocalipse de Mad Max
Roxo disse que o Bitcoin só venceria de fato num mundo pós-apocalíptico, no estilo Mad Max. Essa imagem, confesso, ficou comigo.
Talvez, porém, o apocalipse de cinema nos engane. A catástrofe pode não ser uma cena futura. Quem sabe ela já seja uma condição presente, em maior ou menor grau. Vivemos, afinal, num mundo onde foguetes pousam sozinhos. É também um mundo onde quatro pessoas se encontram por vídeo ao vivo. Nesse mesmo mundo, inclusive, damos descarga na privada com água potável. E, ainda assim, há um homem que revira o lixo para alimentar os filhos.
Deixo a pergunta apenas plantada aqui, portanto, para uma próxima coluna. E se o colapso que tanto esperamos for justamente aquele que já deixamos de enxergar?
A régua de Roxo, no fim, não está errada. Ela está apenas apontada para o lugar errado. E quem mede algo novo com uma régua velha sempre encontra o número que já esperava. O valor intrínseco do Bitcoin, afinal, nunca esteve no preço — esteve sempre na própria contagem. A rede, enquanto isso, segue contando. Que fique aqui o relato.
⚠️ Aviso regulatório: O DePix é um ativo emitido na Liquid Network por empresa privada (Eulen). Não é regulado pelo Banco Central do Brasil e não tem as garantias do sistema financeiro tradicional. Consulte um advogado sobre suas obrigações legais.


